Como os Grupos Terroristas Usam as Redes Sociais?

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As “dimensões” do uso das redes sociais por grupos terroristas diferem no processo de evangelização dos membros e no recrutamento de adeptos e simpatizantes. Mas parece haver certezas: “o terrorismo vai crescer muito” e continuar a usar a Internet.

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Desde o aparecimento das redes sociais, os grupos terroristas souberam usá-las com enorme eficácia para disseminar a mensagem das suas teorias aos adeptos e também para recrutar novos elementos, através da divulgação de propaganda sem contraditório, sendo mesmo transmitidas pela comunicação social sem qualquer filtro.

Essas plataformas sociais exponenciam o terrorismo transnacional, explicou Nuno Lemos Pires, da Academia Militar, numa recente conferência sobre segurança da informação e direito constitucional do ciberespaço. O especialista em terrorismo, estratégia e história militar notou como “as dimensões do recrutamento” (e a sua manutenção) passam por mostrar aos membros das células terroristas “imagens de medo”, a “dimensão do poder” sobre a sua vida e morte e ainda como “instrumento da certeza perante os outros, que estão errados” nas suas ideologias.

Quanto aos adeptos, o objectivo é “conduzir uma política de narrativa”, que também é propalada pela comunicação social e permite seduzir potenciais simpatizantes, visando garantir “uma adesão, sem retorno, a uma ideologia afirmativa ou radical”.

Segundo o autor, num documento mais detalhado, que serviu de base à sua breve apresentação na referida conferência, “prioritariamente os terroristas combatentes, para o combate direto e a gestão nos territórios alvos de ataques, usam a imagem glorificada dos guerreiros, do uso do poder e da pertença a uma organização superior, que somam três efeitos:
– medo (imagens de dor, sofrimento e morte sobre adversários);

– poder (principalmente sobre minorias, mulheres, crianças e povos locais reduzidos à escravatura);

– certeza (dividindo o mundo em dois, os que apoiam a causa e os que são contra, nos casos de inspiração religiosa entre os crentes e os apóstatas, os que servem e os que devem morrer, verdadeiros combatentes e covardes, ou verdadeiros crentes (judeus, cristãos, muçulmanos) e pecadores (hereges, taqfires)”.

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Oito Níveis de Medo

A narrativa de medo, poder e certeza passa pela utilização das redes sociais por grupos terroristas e ocorre em oito níveis, explicou Lemos Pires. O primeiro pretende vigiar pessoas e grupos “para perceber tendências, antes do envio de mensagens direcionadas”, usando algoritmos informáticos. O autor concede que o uso tecnológico destes grupos, ao nível da propaganda, é muito elaborado. Assim, o segundo nível visa ter informação atualizada, “com bons vídeos, imagens e hiperligações, multilíngua, com ‘slogans’ simples'”.

A terceira abordagem passa pela “intimidação e medo, com mensagens a favor ou contra”, num dado grupo populacional. “É terrível”, diz, porque “ataca o indivíduo” diretamente, seja por apoiar ou discordar das opiniões do grupo.

Após referir a vulnerabilidade da cibersegurança (“um sistema seguro é o papel e a caneta”), avança para o problema da localização pela disponibilização de informação pessoal nas redes sociais, onde os utilizadores dizem onde estão e o que fazem (ou fizeram, analisando o histórico do perfil), com relevância para os grupos terroristas poderem avançar para a referida abordagem de intimidação e medo.

O uso das redes sociais permite ainda “exponenciar as narrativas” no campo da ciberideologia e despontar o ciberterrorismo para ataques diretos, “o campo privilegiado para a ação terrorista que visa, através das redes, conseguir o efeito do terror”, para conseguir ataques reais.

Este efeito passa ainda pela possibilidade de usar a chamada “Deep Web” para comunicação entre membros de grupos terroristas, com a indecisão dos sistemas de espionagem oficiais terem de “denunciar ou ouvir” estes canais e as suas mensagens.

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“As Fronteiras do Terrorismo”

“O terrorismo é simplesmente uma técnica, uma tática, uma ferramenta, que qualquer um pode utilizar, que qualquer grupo pode escolher, para afirmar uma determinada ideologia ou conseguir obter um determinado objetivo”, diz.

Como explica, “classificar um ato, um grupo, uma pessoa, mesmo um Estado ou uma entidade supranacional, como terrorista, depende do contexto, de quem classifica, de quem interpreta e da época histórica (os terroristas de uns podem ser os combatentes da liberdade para outros)”. Mas o seu objetivo é “conseguir determinar as motivações valorativas antes das ambições políticas que perseguem, as plataformas que usam para espalhar as suas mensagens, para manterem um apoio significativo e para conseguirem uma atividade consistente, clandestina e consequente, entre as sociedades que pretendem atacar”.

Grupos terroristas “como o Daesh, a al-Qaeda, o Boko-Haram ou o al-Shabab, usam todo o planeta como área de operações”, mesmo apesar de quererem “agir localmente”, no sentido de “quebrarem a vontade dos que se sentem seguros nos países de onde partem acusações sobre as suas ideologias, ou simplesmente para assustarem quem vem de fora ou, finalmente, para os isolarem dos que lhes estão mais próximos”.

No caso do Daesh, por exemplo, “primeiro é preciso cooptar as tribos locais, deixando-os manter o poder sobre o comércio e as populações, desde que, em troca, lhes sejam dadas algumas condições – a aplicação estrita da Sharia, o respeito pelo poder absoluto das chefias superiores e a implementação de uma organização política de um Estado Islâmico”. Fazem ainda uma “grande aposta no bem-estar social dando ênfase aos serviços prestados, como por exemplo, através da ajuda aos pobres, inválidos, órfãos, viúvas, familiares das vítimas de ataques aéreos, subsídios às escolas, restabelecendo serviços públicos, controlando e verificando os preços dos bens essenciais, apoiando os tribunais e forças de polícia local no seu território, cobrando impostos e assegurando a distribuição”.

A nível local ou mesmo internacional, num contexto das “fronteiras do terrorismo”, como salienta, “é preciso, além de um esforço em publicar mensagens e ideais, o de manter a população informada das ações tomadas ao longo do tempo ou, em sinal contrário, de esconder os indícios de que a prática é diferente dos princípios anunciados, sendo assim, passando informações falsas, apostando na contrapropaganda ou bloqueando o acesso a órgãos de informação independentes”.

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No caso “do uso das plataformas digitais para difundir, defender e combater ideias”, o autor considera que “não basta ter uma boa difusão de mensagens iniciais, é forçoso manter uma constância nas ideias e nas ações, na prática e na demonstração dos resultados obtidos”. Nesse sentido, “grande parte do que vemos em uso e difusão na Internet, não visa simplesmente o recrutamento e a propaganda”.

“A construção de modelos consequentes, afirmativos, bem estruturados e sustentados” passa por vigiar indivíduos e grupos, dado que os algoritmos de “vigilância permitem agrupar indivíduos em diversas categorias”, nomeadamente aqueles “com tendência para a radicalização, para determinadas ideologias ou religiões, mais susceptíveis de serem corrompidos economicamente, por áreas geográficas, por etnias, por famílias, clãs, grupos ou tribos, por diásporas, por conhecimentos culturais e acadêmicos, pelas especificidades linguísticas”. Na realidade, todos “podem ser classificados e manter-se a vigilância, individual, sobre o que se fez, o que se disse e com quem se está”.

Lemos Pires elabora ainda que, “a partir de informações verdadeiras”, se podem construir “narrativas conspiratórias ou deliberadamente manipuladas para exacerbar opções radicais”, com “manipulações efetivas de informações e ideologias”.

No já referido caso da intimidação e medo, “receber mensagens, ver o seu nome, de seus familiares ou amigos, referido nas redes sociais, é profundamente intimidante”. Mas até a omissão pode “causar um efeito terrível. Se for publicada uma lista local com os nomes que são uma boa referência e o respectivo nome não aparecer, pode equivaler a uma denúncia intimidatória”.

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Adesão Emotiva (e financeira)

As redes sociais servem ainda para a obtenção de financiamento. “Pode parecer a ação mais óbvia mas o uso das redes pode exponenciar a obtenção de financiamentos a apoios”, nota o professor da Academia Militar, porque “abre o desejo dos adeptos radicais tentarem apoiar e, simultaneamente, a morbidez das imagens e mensagens violentas, criam dependências a quem, simplesmente, procura satisfazer desejos mórbidos e sádicos. Esta acção permite recolher fundos, alimentar grupos com pagamentos ou, através de ameaças mais ou menos veladas, extorquir ‘donativos voluntários'”.

Em resumo, explica, “a postura destes radicalismos é a de procurar adesões emotivas com uma base teórica bem fundamentada. Isso implica uma presença permanente nas redes sociais, nos media, em debates públicos, em espaços de informação mediatizada. Implica ainda uma grande quantidade de sites com informação, apresentada de forma sugestiva, com profissionalismo e aparente profundidade. A maioria destes sites têm links para publicações, imagens, filmes e notícias. Além disso, tentam sempre manter um grupo alargado de especialistas que responde a comentários, induzem ou anulam opiniões desfavoráveis. São pessoas (ou grupos) bem preparadas que tentam manter o ritmo e a novidade da informação e reagem, rapidamente, sempre que um meio é fechado ou ‘atacado’“.
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Como contrariar este aproveitamento dos media sociais e da comunicação social em geral? Quem combate as organizações terroristas “não pode, nem nunca o poderá permitir, que a reação ou a prevenção se faça sem a premência do primado da lei. Vencer estes grupos apenas terá efeitos no tempo se for feito no escrupuloso cumprimento das leis nacionais e internacionais e no respeito pelos princípios, direitos, liberdades e garantias que as sociedades democráticas defendem”.

Para Lemos Pires, a síntese é que “o terror faz-se nos mídia” e que “o terrorismo vai crescer muito”.

FONTE

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