Livro: Gomorra – A História Real de um Jornalista Infiltrado na Violenta Máfia Napolitana, de Roberto Saviano

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Aparentemente, o jornalista italiano Roberto Saviano não fazia ideia precisa do terreno em que estava pisando quando decidiu investigar a Máfia Italiana Camorra.
O resultado desta investigação corajosa foi publicado em 2006 sob forma de livro – no Brasil, Gomorra: A História Real de um Jornalista Infiltrado na Violenta Máfia Napolitana (Bertrand Brasil, 2008), título em alusão à cidade bíblica destruída por Deus devido às suas práticas imorais e pelo qual Saviano recebeu prêmios, honrarias, ficou mundialmente famoso e rico, mas passou a viver escondido e cercado de seguranças; está jurado de morte pela máfia napolitana.

livro-gomorra“Eu poderia ter feito as mesmas denúncias e contado a mesma história de outra maneira, preservando minha segurança e a de pessoas próximas” declara hoje arrependido. A coragem tem seu preço, e já foi dito que a única virtude de um homem é ser valente; Roberto foi, e muito.

O mal tem seus fascínios, às vezes de alguma forma nos encanta – os vilões são sempre os favoritos talvez porque escancarem algo que existe dentro de nós bem guardado. Assim, se a Máfia causa alguma admiração, a leitura é obrigatória.

O livro é brutal, causa asco com sua narrativa real, cruel e sem disfarce. Mesmo imaginando o que acontece no submundo, uma mente civilizada não consegue atingir tal degradação.

A primeira cena narra um incidente ocorrido no porto de Nápoles – um container suspenso por um guindaste se abre e dele cadáveres congelados de chineses começam a despencar um atrás do outro se espatifando no chão. Rapidamente tudo é limpo e o dia segue sua
rotina.


Porto de Nápoles
…não se ouve falar muito sobre ele por aqui, mas qualquer item contrabandeado da Ásia que é comprado em qualquer rua do mundo passou por lá, dentro de containers chineses e suíços. É isso mesmo, os Suíços, os tops da civilização, são sócios dos chineses no transporte de muambas e cadáveres.

O que mais espanta é saber que o mundo de hoje não seria o mesmo sem a Camorra, ela não é algo marginal no mundo dos negócios, mas faz parte ativa dele, se encarrega de todo e qualquer serviço sujo e é chamada a fazer isso.

Saviano começou a entender melhor o terreno em que pisava quando foi destacado para participar da equipe que faria o desembarque de uma mercadoria em alto mar na madrugada de um dia frio. Trabalhou à exaustão até que todas as caixas estivessem bem escondidas em um prédio com fachada residencial no bairro napolitano Secondigliano, que com pouco menos de 3 km² é um dos lugares mais perigosos do mundo.

Quando seu chefe abriu uma das caixas, a surpresa: pares de tênis de uma das marcas mais conhecidas do mundo, tênis novos, modelos originais ainda não lançados no mercado, cujos destinos são grandes lojas que os vendem com “descontos imperdíveis”, praticando concorrência desleal e faturando muito mais.

Sangue, muito sangue jorra no decorrer da narrativa; sangue de famiglias rivais, policiais, padres, sangue de suspeitos, de adolescentes, independente de culpa, sexo ou idade. Requintes de crueldade inimagináveis. O inferno está aqui em cima mesmo e pelo menos uma parte dele fica em Nápoles.

O livro é didático, nele aprendemos que o sofisticado mundo da alta costura vive em função de trabalhadores que estão sob regime semiescravo ou escravo, que a maior parte dos produtos de grife vendidos nas ruas mundo afora são os mesmos oferecidos nas lojas autorizadas, que uma mudança na logística barateou e popularizou a cocaína no planeta, que dependentes servem como cobaias para testar misturas em drogas e se acontecer alguma reação são deixados na rua para morrer, que terroristas e rebeldes tem à sua disposição arsenais de guerra, que o lixo industrial que custa muito caro para ser tratado e dispensado na Europa é exportado clandestinamente e enterrado em qualquer terreno disponível no sul da Itália ou no terceiro mundo, isso sem contar  o praxe das conhecidas extorsão e prostituição. A Camorra está por trás de tudo isso e parece que ninguém vai detê-la.

A sensação que fica após a leitura ao mesmo tempo indigesta e fascinante é que o mundo está errado, não simplesmente existe algo de errado.

Por: @GARCEZ

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