O que eu perco (e ganho) trocando o Google pelo DuckDuckGo

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O Google ainda é, de longe, o buscador mais usado no mundo. No Brasil, sua fatia do mercado passa dos 90%, e não é por acaso: é um serviço bom, que costuma entregar o que o usuário procura numa frequência bem satisfatória. Apesar disso, o Google não é o único e, por uma série de razões, resolvi experimentar o DuckDuckGo por uns tempos.
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O maior motivo que leva alguém a abdicar do poder do Google por algo mais simples, como o DuckDuckGo, é privacidade. Desde que o Projeto Prism foi revelado e com a crescente preocupação com a forma com que nossos dados são usados para segmentar anúncios na Internet, o interesse por alternativas mais transparentes aumentou.

O DuckDuckGo passou a ser uma opção nativa (não padrão) no iOS 8, OS X Yosemite e no Firefox 34. Gabe Weinberg, CEO do DuckDuckGo, disse que o número de consultas feitas em seu buscador cresceu 600% nos últimos dois anos. E, o mais importante, ele funciona de uma maneira minimamente viável — não basta respeitar o usuário, é preciso, antes disso, prestar um bom serviço.

Configure o DuckDuckGo como mecanismo de busca padrão no Chrome

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Por aqui, troquei o motor de busca do Chrome. Fazer a troca é fácil, embora o caminho até lá não seja muito óbvio. É assim:

– Acesse o buscador, clique com o botão direito no campo de busca e, em seguida, em Adicionar como mecanismo de pesquisa.

Depois, entre em chrome://settings/searchEngines, localize o DuckDuckGo na lista e clique no botão Tornar padrão, que aparece ao passar o cursor do mouse sobre ele.

Feito isso, o Chrome passará a usar o DuckDuckGo em vez do Google na hora de fazer pesquisas na web.

Por que o DuckDuckGo?

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É importante esclarecer desde já: o DuckDuckGo tem publicidade, e ela aparece nos resultados mais ou menos como no Google, Bing e outros buscadores tradicionais. O diferencial é que os anúncios são selecionados de acordo com a palavra-chave usada na pesquisa, e só. O Google usa isso e mais uma série de sinais, como o seu histórico de buscas, de navegação e geolocalização a fim de exibir anúncios (e resultados) mais segmentados.

Outra estratégia de faturamento que o DuckDuckGo usa é o de links de referência de alguns sites de e-commerce, como Amazon e eBay. Alguns resultados vêm com um código na URL que garante, ao buscador, uma pequena comissão caso o usuário que clicou nela efetue uma compra. É o mesmo modelo que utilizo aqui, no Manual do Usuário.

Esse modelo de negócio não interfere com a principal bandeira do DuckDuckGo, a privacidade. O site não coleta nada do usuário, que não tem nem mesmo acesso a uma conta/perfil. Algumas configurações são disponibilizadas e elas podem ser salvas na nuvem, mas isso é feito com uma senha, não com um login ou qualquer outro mecanismo capaz de identificar usuários. O DuckDuckGo não sabe quem você é, nem tem interesse nisso. Ele é neutro e igualitário.

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As desvantagens do DuckDuckGo

Se por um lado essa abordagem garante mais privacidade, por outro priva o buscador de entregar resultados mais precisos. No Google, por exemplo, quando digito “restaurante,” ele exibe restaurantes de Maringá no topo da página, logo de cara, sem eu precisar dizer onde estou. Não preciso, pois o Google sabe que eu moro em Maringá e processa esse sinal, junto com dezenas de outros, para devolver resultados que fazem mais sentido para mim, indivíduo, Rodrigo Ghedin. É mais cômodo e a base do filtro invisível formulado por Eli Pariser.

Já no DuckDuckGo, “restaurante” retorna guias de São Paulo e sites de alcance nacional. Ele não sabe onde eu moro e não tem meu histórico de restaurantes próximos pesquisados, então devolve uma lista dos endereços mais populares derivados da palavra-chave buscada.

Para consultas mais genéricas, não chega a ser problema — no caso, “restaurantes maringá” no DuckDuckGo já eleva em muito o nível dos resultados, a ponto de os tornar aceitáveis. No geral, aliás, o buscador é bem competente e não fez eu me sentir privado de muita coisa por deixar o Google de lado. Só em alguns casos, e uns bem específicos e úteis.

Imagens, um clássico. A do Google é bastante refinada, permitindo filtrar os resultados por cores, tamanho e outros critérios — até imagens com licenças de uso livres! Também dá para buscar pela própria imagem (pesquisa inversa), não apenas palavras-chave, o que é bem útil para encontrar a fonte de uma ou versões em tamanhos diferentes. A pesquisa por imagens do DuckDuckGo não é de todo ruim, mas não chega perto do detalhismo que o Google fornece.

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Falta ao DuckDuckGo, também, um filtro temporal. O Google oferece uma ferramenta que limita os resultados a períodos, o que é muito útil para encontrar notícias específicas, especialmente quando os termos estão envolvidos em alguma notícia mais recente e as buscas retornam esse novo fato, deixando o antigo no limbo da segunda página de resultados em diante.

Mesmo sem o filtro temporal, o DuckDuckGo perde na busca por notícias. Não é de hoje que o Google aposta em conteúdo em tempo real, e esse esforço se faz ver na prática. Tanto notícias de última hora, quanto mais antigas, são mais fáceis de serem encontradas no Google. E… bem, nessas horas eu pulo para lá sem muita cerimônia. O bom é que o DuckDuckGo facilita esse trânsito, e essa é só uma das peculiaridades bacanas do serviço.

Onde o DuckDuckGo acerta

Se eu quero pesquisar algo no Google a partir do DuckDuckGo, basta colocar um !google antes da consulta. Um vídeo direto na pesquisa do YouTube? Basta inserir !youtube antes. O mesmo vale para !facebook, !twitter e uma variedade de outros sites. São os !bangs, que “teletransportam” o usuário do DuckDuckGo para os mecanismos de busca de outros sites.

O serviço também tem respostas diretas para contas, conversor de medidas, informações factuais, filmes, livros até coisas menos comuns, como palavras que rimam, status de voos e um timer nativo. As respostas instantâneas, nome dado a esse conjunto de resultados precisos, são relativamente novas, mas já são mais de 100 disponíveis e o DuckDuckGo continua a receber novas ideias e contribuições — o mecanismo tem o código aberto; as melhores criadas e implementadas estão reunidas neste site. Falta, porém, conversão de moedas. Faz falta, e o Google tem.

No quesito usabilidade, mais elogios. O DuckDuckGo destaca o site oficial da palavra-chave pesquisada, por exemplo, o que é um adianto. Os resultados têm rolagem infinita e há opções de temas para quem não curte o padrão. (Eu uso um alternativo, o Contrast.) Se não gostar de nenhum deles, as configurações permitem formatar a página nos mínimos detalhes, de cores à tipografia. E não só; toda a experiência de uso do DuckDuckGo é bastante personalizável.

Vale trocar o Google pelo DuckDuckGo?

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Gabriel Weinberg, fundador e CEO do DuckDuckGo.

É impossível negar que há uma perda na qualidade dos resultados. O DuckDuckGo é ótimo, mas ao abdicar do monitoramento dos usuários, ele perde em personalização e isso sem dúvida afeta os resultados. É, afinal, o dilema da privacidade vs. comodidade em ação.

O fator hábito também pode pesar um pouco para quem está acostumado às ferramentas e atalhos mais avançados do Google, mas nada que um pouco de paciência e interesse não resolvam — várias dessas coisas estão no DuckDuckGo, só que são acessíveis por caminhos diferentes. E, claro, o serviço tem lá seus recursos sedutores, como os !bangs e a personalização da página de resultados.

No mínimo, vale a pena experimentar. Se não gostar, pelo menos você terá a tranquilidade de que esse período de testes não deixou rastros dos seus gostos e hábitos num servidor obscuro em algum canto da Internet…

(Foto do outdoor que Gabe alugou, em 2011, no trajeto que muitos funcionários do Google fazem de San Francisco a Mountain View. A cutucada na rival multibilionária custou a Gabe US$ 7 mil por quatro semanas de exibição.)

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