V de Vingança

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“Remember, remember, the 5th of November…”

“V” de vingança. Um das HQs que mais me marcaram como leitor. A experiência de ler isto aos 16 anos…não é fácil de explicar. Um texto extremamente elaborado de mestre Allan Moore com os desenhos precisos e estilizados de David Lloyd me levaram a um patamar novo de leitura. Uma obra na qual eu pensava e repensava. “V” era algo totalmente inesperado. Um anarquista. Eu mal compreendia o que isto significava antes de ler a história. A questão da liberdade, a questão do acesso a cultura, a questão da justiça e sua possível corrupção (Quando lemos o “diálogo” entre “V” e a estátua de Justiça, paramos para pensar muitas vezes).

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A obra foi publicada originalmente entre 1982 e 1983 em preto e branco pela editora britânica Warrior, mas não foi concluído. Em 1988, a  DC Comics incentivou Allan Moore e David Lloyd a retomarem a série e a finalizarem com uma edição colorida. A série completa foi republicada nos EUA pelo selo Vertigo da DC e no Reino Unido pela Titan Books. No Brasil, foi publicada em 1989 em cinco edições em cores pela editora Globo e mais tarde pela Via Lettera, em dois volumes em preto e branco; em 2006 teve uma edição especial pela Panini, em volume único, colorido e com material extra.
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“V” é quase mais um manifesto sobre a liberdade sobre o sistema do que uma HQ. Os elementos de HQ estão todos lá, mas é possível explorar mais camadas e destilar críticas sociais que não só avaliam o sistema que nos rege, como também a cada indivíduo dentro do seu “governo” particular. Personagens corrompidos e que se corrompem. Quando a realidade estável cai diante de um cataclisma (no caso nuclear), para onde seguiria os escombros da sociedade? Para um sistema colaborativo ou totalitário. O caos nos levaria a uma nova visão de relações ou de dominação. Haveria sabedoria após a quase destruição, ou a força seria utilizada para dominar uma maioria em favor de uma minoria?

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Uma vez, me disseram que o ser humano é principalmente calcado na “lei da sobrevivência, a lei do mais forte”. Justamente, um dos personagens tenta convencer um conhecido a dominar e controlar as pessoas alegando que “você é como eu, um SOBREVIVENTE!”. É de se perguntar: Como nos portaríamos diante da queda do sistema atual? Como você se portaria? Sobreviveria a todo o custo? Trapacearia, roubaria e seria capaz de matar para sobreviver? È o que acontece com vários personagens principais da trama. Quando cai o sistema, eles se adaptam ao novo e totalitário sistema sem escrúpulos. Concordam com genocídio, e controle de atos e pensamentos! Mesmo a população diante do caos se entrega ao novo sistema. Entregando vizinhos e amigos pessoais as autoridades, porque estes não se encaixam. Uma vez li sobre uma mãe e filha escondidas numa casa quando soldados nazistas invadiram para levá-las para a morte. A filha foi encontrada e levada. A mãe permaneceu em silêncio…

Precisamente, até que ponto os tiranos e seus assessores são os únicos culpados? Num dos pontos mais importantes desta obra questiona-se que o sistema é culpado, mas que cada um de nós que aceitamos e colocamos tais sistemas no poder e em funcionamento somos tão culpados quanto! É um dos momentos mais brilhantes da obra, quando “V” toma a rede estatal de TV e faz um julgamento sobre a própria espécie humana. Fantástico. Além de oferecer uma reflexão constante, a obra é rica em referências culturais na música, teatro, literatura. Algumas eu só pude compreender anos depois, conforme fui adentrando pelos caminhos da cultura. Devo dizer que esta obra nos encoraja nas devidas proporções a empreender esta batalha pela disseminação cultural e comigo não foi diferente. Sua influência foi grande.

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Falando propriamente sobre a história ela acontece em um passado alternativo e futurista. Em tal realidade, um partido de Totalitário de extrema direita assume o poder na Inglaterra após uma guerra nuclear. Moore lança mão de similaridades entre o seu partido da “Chama Nórdica” e os regimes fascistas e nazistas ocorridos na Alemanha e Itália. Um tapa na cara oferecido pelo autor que via na sociedade britânica, nos tempos da “dama de ferro” Margaret Tatcher, uma tendência a intolerância. Tais alusões são notáveis devido ao fato do governo ter o controle sobre a mídia, a existência de uma polícia secreta, campos de concentração para minorias raciais e sexuais. Também inspira-se em Hannah Arendt no seu livro “Origens do totalitarismo” de 1951. Observamos ainda um sistema de monitoramento feito por câmeras nos moldes de “1984”, de George Orwell, escrito em 1948. A história começa após o fim do conflito político e com os campos de concentração desativados. A população ainda que dominada e infeliz aceita a situação, até que surge “V” — um Anarquista que veste uma máscara estilizada de Guy Fawkes e é possuidor de uma vasta gama de habilidades e recursos. Ele então inicia uma elaborada e teatral campanha para derrubar o Estado. No processo, conhece Evey, garota que perdeu os pais durante a guerra.

Contrapondo-se a atitude da massa, “V” não é complacente. Planeja e executa um plano tão preciso de queda do estado que se assimila a arrumação de peças de dominó: precisão e paciência na elaboração, mas que depois da queda da primeira peça, nada mais pode impedir o movimento. Não à toa, Moore e Lloyd se utilizam desta imagem. Esta precisão foi sintetizada nas palavras de Evey: “Quão sábia foi sua ‘Vendetta’. Quase uma cirurgia. Você não apenas cortou sua carne, você esquartejou suas ideologias!”
“V” prepara o caminho destruindo o sistema. Foi tão violento, porém mais preciso do que ele, por isso foi uma vingança. Uma ironia, já que V foi uma vítima deste sistema. Um experimento que não deu certo. Um Frankenstein que se voltou contra seu criador (provavelmente, mais uma referência implícita). Mas, depois abre o caminho para um mundo melhor…de reconstrução.

“V” é uma obra magnífica. Reflexiva. Não deixem de ler!!

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Curiosidades:

– O enredo mostra a ascensão, o auge e a queda de um regime totalitário futurista firmado na Inglaterra.

– Nas histórias em quadrinhos, o nome do ditador deste regime é “Adam James Susan”.

 – No enredo, a bandeira do partido que sustentava o regime totalitário possuía um símbolo com formas geométricas e ângulos retos, tal qual a suástica nazista. Além disto, a bandeira era de cores preta e vermelha, uma inversão das cores utilizadas pelo Partido Nacional Socialista Alemão (Partido Nazista);

– Existe no enredo uma polícia secreta, chamada em português de Dedos (inglês: fingers).

– No regime nazista havia também uma polícia secreta, a Gestapo;

 – Há uma forte crítica ao clero no enredo, mostrando escândalos de pedofilia, assassinatos, e busca pelo poder. Além do mais, no enredo, há um acobertamento por parte do clero (provavelmente anglicano) às experiências feitas em seres humanos.

Fonte

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